Petrobras reativa fábricas de fertilizantes após explosão das importações russas
A Petrobras desativou ou arrendou três fábricas entre 2018 e 2022, sob os governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro. Hoje, o Brasil importa mais de 90% do insumo
Desde que a Petrobras deixou de produzir fertilizantes em 2016, o Brasil aprofundou sua dependência externa — especialmente da Rússia — para suprir a demanda do agronegócio. Hoje, o país importa mais de 90% do insumo, o que o coloca na rota de sanções comerciais dos Estados Unidos, impulsionadas por uma nova postura protecionista do presidente Donald Trump.
A Petrobras desativou ou arrendou três fábricas entre 2018 e 2022, sob os governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro, alegando prejuízos financeiros. O movimento abriu espaço para que o fertilizante russo ganhasse protagonismo no mercado nacional: as importações saltaram de 4,8 milhões de toneladas em 2016 para 12,5 milhões no ano passado.
Com 16,6% do mercado global, a Rússia é hoje a principal fornecedora mundial de fertilizantes. No Brasil, essa dependência aumentada representa um risco geopolítico. Em julho, Trump anunciou possíveis tarifas de até 100% sobre países que continuem comercializando produtos russos, como forma de minar o financiamento indireto à guerra na Ucrânia.
A Índia já foi alvo: teve a tarifa de importação dobrada na semana passada. Um projeto em tramitação no Congresso norte-americano prevê sobretaxas ainda mais duras — de até 500%.
Além dos fertilizantes, o Brasil também importa volumes expressivos de combustível russo. Em 2024, seis em cada dez litros de diesel importados vieram da Rússia, movimentando US$ 5,4 bilhões.
Petrobras pode suprir até 35% da demanda nacional de fertilizantes
A indústria nacional enfrenta entraves para competir. O fertilizante fosfatado entra no país com isenção de tarifas, enquanto os produtores locais arcam com ICMS duplo (na origem e no destino). Já no caso dos nitrogenados, a crítica recai sobre a Petrobras, acusada de vender gás de refinaria (matéria-prima do insumo) pelo dobro do preço internacional.
Diante desse cenário, o governo tenta reverter a estratégia de desindustrialização. Em maio, a Petrobras assinou acordo para reassumir as unidades da Bahia e de Sergipe, arrendadas à Proquigel, e prevê retomada operacional até o fim de 2025. A fábrica do Paraná deve voltar a operar com carga plena até agosto. Ao todo, a Petrobras promete investir US$ 900 milhões no setor até 2029.
Se reativadas plenamente, as três unidades devem suprir até 35% da demanda nacional por ureia até 2028, segundo estimativas da própria estatal. O objetivo é reduzir a vulnerabilidade externa e proteger o agronegócio de choques internacionais.
“O Brasil não pode importar 90% dos insumos de que precisa para manter sua agricultura”, afirmou o presidente Lula em agosto de 2024, durante cerimônia de reativação da fábrica no Paraná. “Parar de fazer fertilizante foi uma irresponsabilidade.”

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